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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Breve historico comentado do gênero Lachesis





Ao nos referirmos às "surucucus", "surucucus-pico-de-jaca", "surucucus-de-fogo", "surucucu apaga-fogo" ou "surucutingas", estamos falando dos animais que os Tupi - Guaranis denominavam "sú-ú-ú", ou "bote-bote-bote", referência a botes sucessivos, ou "àquela que dá botes sucessivos".

Há sempre uma mística na nomenclatura popular para o Gênero Lachesis. Em qualquer língua observa-se respeito e reverência: "mata-buey" ou "mata-boi" em partes da Américas do Sul e Central; "maitre de la brousse" ou "chefe-do-mato" na Guiana Francesa, e na língua inglesa "bushmasters" ou "rainha da mata"... Difícil traduzir literalmente, mas fácil de compreender a advertência velada nesses nomes.

Nas expedições do século XVIII ao Brasil houve relato de "ataques a fogueiras de acampamentos", aguçando a curiosidade e a fantasia de gerações. O medo do observador realmente ampliou em muito, o que foi provavelmente uma reação defensiva a uma desorientação termo-sensorial, frente a carvões incandescentes encontrados repentinamente pelo réptil no solo da mata. 

É fato que uma surucucu pode se aproximar sem temor de um ser humano de forma investigativa. Havendo uma fonte térmica adicional (além do volume corporal) nas mãos dessa pessoa, a proximidade pode desencadear novamente o comportamento defensivo (bote), mas daí a "atacar fogueiras" há uma grande distância, ainda mais cientes que somos de que a natureza trabalha pela economia de energia e auto-preservação.

Mas há evidencias de que uma surucucu  ao menos nas Matas Atlânticas (Ab'Saber) do Sul da Bahia, pode sim desferir botes em fontes térmicas ou luminosas nas mãos de quem adentre seus domínios, à noite. Confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/07/apaga-fogo.html

As surucucus encontram-se na Superfamília Colubroídea (Caenophidia), onde observa-se uma especialização gradativa (em relação ao ancestral boídeo) na função de produção e inoculação de peçonha, como forma de subjugação da presa. Esta Superfamília inclui a família Viperidae (Boie,1827), com sua dentição solenóglifa. Da Família Viperidae deriva-se a sub-família Crotalinae (animais com fosseta loreal), onde se encontra o Gênero Lachesis.

O termo Lachesis foi usado pela primeira vez por Daudin, em 1803. Foi extraído da mitologia grega, sendo Lachesis uma das Deusas do Destino, a responsável pela determinação do tempo de vida concedido aos seres humanos, numa alusão à letalidade potencial. Estudos (levantamento mundial) de certa forma contaminados pela notificação inadequada ou só realizada em caso de óbito, apontam para morte em 80% do acidentes com o gênero, não sendo essa contudo, a realidade brasileira. Temos serie com bichos amazônicos onde a mortalidade foi inferior a 10%.

Em 1766 Linnaeus descreveu Crotalus mutus. De fato, o vibrar vigoroso da cauda sobre o folhiço é o som dos pesadelos dos humanos que dividem território com Lachesis. Uma "cascavel" (chocalhadora), porém "muda" (sem chocalho), ou "mutus", pensou Linnaeus, observando o segundo estágio defensivo de Lachesis. Aumente o som e confira:


video


O primeiro estagio defensivo é a imobilidade, confiando na camuflagem; o terceiro é elevação do terço cervical em até 50-60 cm ou mais de altura em relação ao solo, numa demonstração de força e vigor que inibe o agressor.

O masculino "mutus" seguiu até 1822, quando Schinz propôs "muta", formando-se pela primeira vez aqui a nomenclatura binominal Lachesis muta: Lachesis (Daudin,1803) + muta (Schinz, 1822) ou "destino silencioso", e quem já acompanhou de perto um acidente laquético sabe que de fato a hipotensão que se instala dá no vitimado um aspecto de "indiferença", em sua trajetória "silenciosa" para o estado de choque e parada cardíaca, algo que pode ocorrer na primeira hora de evolução.

Em 1824 Wied descreve Lachesis rhombeata. Em 1966 Hoge descreve Lachesis muta noctivaga, e em 1978 (Hoge e Romano) a sinonímia noctivaga-rhombeata é feita, com a descrição da subespécie Lachesis muta rhombeata, foco de grande polemica atual, quando a maior parte da academia resiste ao conceito de subespécies para o Gênero. Voltaremos adiante à questão.

Taylor, em 1951, adota pela primeira vez a nomenclatura trinominal para Lachesis, na descrição de Lachesis muta muta. Em 1986, Solorzano e Cerdas descrevem Lachesis muta melanocephala na Costa Rica. A tendência à classificação de todo o Gênero como Subespécies de Lachesis muta atingiu Lachesis stenophrys (Cope, 1876) em 1970, quando Peters e Oreja-Miranda propõem Lachesis muta stenophrys, do norte amazônico e America Central, no lado Atlântico da Cordilheira de Talamanca.

Em 1994 Ripa publica artigo no Bulletin of the Chicago Herpetological Society apontando para o caminho da elevação ao nível de espécie, de Lachesis muta melanocephala e Lachesis muta stenophrys, e em 1997 também na CHS, Zamudio e Greene com base em analise de DNA mitocondrial, confirmam a diferenciação evolutiva dos clados.

Assim, a partir de 1994, o gênero compreenderia as espécies L. stenophrys, melanocephala e muta, esta última, com a subespécie rhombeata. Franco e Fernandes em 2004 não reconhecem Lachesis muta muta e portanto não reconhecem Lachesis muta rhombeata. Ripa em 2006 sugere que a subespécie rhombeata seja mantida, ampliando sua distribuição geográfica a todo o sul do Rio Amazonas.


Animais do norte do Mato Grosso e da Mata Atlântica, ou matas atlânticas (Ab' Saber) são idênticos (e tiveram contato no passado) e a barreira geográfica que os isola hoje, é uma disjunção recente (máximo 800.000 anos). Há pouca diferença morfológica em relação à população do norte do Rio Amazonas, mas novas teorias evolutivas e sistemática pura não são o alvo deste artigo, sendo contudo importante ressaltar que a polêmica continua viva.

Os últimos movimentos na história do Gênero tem raízes em 1896, quando um certo "Doctor Garcia" descreveu "la verrugosa del Chocó", Bothrops acrochordus. Esta população do noroeste amazônico permaneceu num limbo taxonômico até recentemente, quando Ripa, em 1999, a descreve como espécie Lachesis acrochorda, fechando o quadro atual:

1.  Lachesis melanocephala (Solorzano Cerdas,1986)
2   Stenophrys (Cope,1876)
3.  Lachesis acrochorda (Garcia,1896)
4.  A distinção subespecifica do representante brasileiro do gênero,  Lachesis muta (Linnaeus, 1766; Daudin, 1803) em Lachesis muta muta (Daudin, 1803; Taylor, 1951) e Lachesis muta rhombeata (Wied-Neuwied, 1824; Hoge, 1965) é foco de controvérsias, como todo o conceito de subespecies em herpetologia.
  



Para aprofundamento e sistematica de Lachesis, confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/02/questao-da-subespecie-cascata-das-racas.html 


O melhor da história do gênero é que ela ainda esta sendo escrita, neste momento. Há bem pouco tempo, Ditmars e Amaral em sua correspondência ainda aventavam para a hipótese da oviparidade no gênero: http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2013/09/mole-ditmars-amaral-e-o-enigma-dos-ovos.html Evolução, morfologia, comportamento e sistemática à luz da biologia molecular são alvos de estudos atuais.


Urgente acima de tudo é a preservação da "Surucucú-da-Mata-Atlântica", um "predador de grande porte confinado a área restrita, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Norte, sob fortíssima pressão antrópica" (P.E Vanzolini, comunicação pessoal) cuja principal ameaça é a destruição de 95% do seu habitat e a política atávica do abate. A surucucu da Costa Rica, Lachesis melanocephala, encontra-se em pior situação de ameaça, pelos mesmos motivos.

A biologia do animal é uma ode adaptativa ao bioma perdido. Sem a umidade da mata os ovos porosos se ressecarão. Escamas hiper-queratinizadas (pico-de-jaca) garantem proteção contra fungos no habitat úmido e também função escavatória em sua vida comensal e semi fossorial nos buracos de paca e tatu. O longo tubo digestivo permite processamento alimentar em baixas temperaturas (18oC ou pouco menos, no fundo das tocas). O bote alimentar caracteriza-se por não soltar a presa, que poderia se perder no solo úmido da mata repleta de alagadiços.

Apesar de poder alcançar 3,40m, lançando botes acima do nível da cintura e com muita inoculação, trata-se de animal dócil e compleição delicada que requer manuseio diferenciado.

Como cada um de nós tem o direito a existir no planeta, e respeitados alguns horários e regras básicas, a coexistência com os humanos é perfeitamente viável, confira: http://lachesisbrasil.blogspot.com/2011/08/sobre-pergunta-recorrrente-de-como-se.html

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22 comentários:

  1. Na minha opinião a mais bela serpente brasileira na soma de padrão de coloração e porte. Uma pena que a subespécie da Mata Atlântica esteja ameaçada e ainda sob forte pressão, mas por outro lado é confortante saber que existem pessoas empenhadas na conservação. Só essa técnica de manuseio que me deixa com calafrios. rs

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  2. Você tem razão. Toda vez que sigo para manejo também sinto calafrios, medo mesmo de deixar meus filhos em situação difícil na vida. Na foto inicial do blog advertimos que estas técnicas não são recomendadas a terceiros. Cheguei nelas por necessidade. O bicho é muito músculo para 'pouca' estrutura osteo-tendínea, e não tolera abuso na região cervical. Provoca em sí mesma trauma raquimedular com giros violentos no próprio eixo, se contida com laço ou excesso de pressão no gancho. Obrigado pela visita. R

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  3. Por favor me ajude!!!essa espécie existe apenas um exemplar ou mais?

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    1. Grato pela visita. Não sei se entendi sua duvida. Mande um email para mim explicando melhor por favor: lachesisbrasil@hotmail.com

      Rodrigo

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  4. Belo trabalho, Rodrigo. Parabéns pela iniciativa e esforço na conservaçao dessas belas e assustadoras serpentes.
    Aqui em Niterói - RJ, temos uma localidade no bairro de São Francisco chamada de Grota do Surucucu, a toponímia já diz tudo. Pena que as cobras não estejam mais lá, pois a área é densamente povoada. Agora já sei que se tratava da L. muta rhombeata.
    Estive no sul da Bahia, Itacaré e proximidades, no início do ano e pude vislumbrar esse trecho de Mata Atlântica maravilhosa.

    Mais uma vez, parabéns
    Daniel Abilio

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  5. Parabéns pelo bom trabalho que tem feito com esses animais, as pessoas no mundo inteiro deviam dar mais valor a estes animais, espero que um dia tambem eu possa a vir trabalhar com serpentes venenosas. Abraço de Portugal

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  6. Olá Rodrigo. Sou Técnico em Enfermagem do Trabalho, Instrumentador cirúrgico e estou por me especializar também como socorrista. Estou produzindo um trabalho em PPS que é a expressão visual de um dos meus TCCs de Técnico em Enfermagem. A busca por conteúdo para este trabalho me trouxe até aqui e eu gostaria de fazer algumas perguntas. Observei que a Lachesis possui semelhanças com a Bothrops e com a Crotalus (o que é normal porque são crotalíneos). O acidente laquético, embora bastante semelhante ao acidente botrópico, tem como diferencial a síndrome vagal. Com relação à peçonha da Lachesis, já é comprovada e conhecida a fração neurotóxica, ou a fração causadora síndrome vagal ainda não pode ser atribuída à existência de uma neurotoxina?

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  7. Grato pela visita Wildmar, e sim, a fosfolipase A2 presente na peçonha de Lachesis provoca bloqueios neuromusculares irreversíveis in vitro, como demonstrado por Daniela Damico da UNICAMP. A giroxina, também presente nesta peçonha tem ação semelhante. Uma discussão mais aprofundada voce encontra aqui no blog mesmo:
    http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2011/05/neurotoxicidade-em-lachesis.html abraço, R

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    1. Obrigado por responder tão rápido. Tenho mais algumas perguntas e, como sei que você deve trabalhar muito, vou postando aos poucos. Ainda falando da peçonha, ela permanece a mesma ao longo da vida da Lachesis, ou muda de composição ao crescer como acontece com a Bothrops Moojeni?

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  8. Disponha Wildmar, e sim, a bioquimica da peçonha varia com a idade do animal e posição geografica; o veneno de filhotes difere daquele de adultos, e o da surucucu do Amazonas não é o mesmo que o da surucucu da costa leste, como demonstrado por Fatima Furtado, do Butantã, em trabalho antologico com Otero. Abraço. R

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    1. O manual do ministério da saúde sobre animais peçonhentos não informa que a Lachesis é ovípara. Diante disto, a pergunta é: as fêmeas da espécie são maiores que os machos? Caso sim, isto se deve à anatomia necessária ao desenvolvimento dos ovos até a postura?

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  9. Em Lachesis, as fêmeas normalmente são menores que os machos, é o preço nutricional que se paga por uma oviparidade com características especiais no gênero: após a postura, as fêmeas, e na Mata Atlântica machos frequentemente também, guardam os ovos por até 100 dias, sem se alimentar, só bebendo água ... e aí você já viu tudo ... abraço, R

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    1. Muito interessante este comportamento. Continuando, o mesmo manual informa que a Lachesis atinge o tamanho de 3,50m. Esta informação está correta? Em sua experiência com a espécie, você já viu uma Lachesis que tenha atingido este porte? Existe alguma foto?

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  10. Surucucus raramente ultrapassam os 3 metros, o maior exemplar já medido tinha 3,62 metros, e o registro é de Ditmars, curador de répteis do Bronx Zoo, NY, 1910. R

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  11. É sabido que a Surucucu - assim como a Jararaca - não possui chocalho (ou guizo), mas agita a ponta da cauda como a Cascavel. Observei em uma foto que na porção final da cauda da Surucucu (entre 1,0 a 2,0cm) há um apêndice como um osso (não sei se há um nome específico para esta parte da anatomia), a qual se assemelha a uma miniatura atrofiada e calcificada do chocalho da cascavel. Existe alguma literatura ou tese de que os viperídeos já tenham tido um ancestral comum que possuía o guizo?

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  12. Não é do meu conhecimento literatura a respeito desse ancestral comum, o que se sabe por observação é que todas as Bothrops brasileiras, seja por irritação/advertencia, ou por engodo caudal (atraindo suas presas) vibram a cauda tal qual cascaveis e surucucus. A escama adaptada na ponta da cauda de lachesis (pode ser vista aqui no blog em 'Arte Laquetica') fez com que uma de suas primeiras nomenclaturas fosse Crotalus mutus, ou chocalhador sem chocalho, tal a força sonora deste apendice contra o folhiço seco da floresta. R

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    1. Doutor, eu precisei me afastar do computador por alguns dias desde o último feriado, mas não poderia ficar sem voltar aqui e expressar a minha gratidão e admiração. Eu quero lhe agradecer muitíssimo pela sua atenção e pela sua contribuição ao meu trabalho. Após ser apresentado, eu pretendo publicá-lo na web e envio o link para que você possa vê-lo. Fico feliz por termos feito este contato. Tenho certeza de que você sabe que o seu trabalho e a sua saga são históricos no Brasil. Assisti à matéria sobre o seu trabalho no programa ‘Fantástico’ na noite em que ela foi ao ar e novamente pelo youtube ainda no mês passado. Além disto, assisti a alguns dos seus vídeos. Imagino o quanto é árduo o seu trabalho e entendo que ninguém passaria pelo que você passou (e talvez ainda passe) somente pelo glamour do reconhecimento. É notório que existe amor da sua parte, não só pelas surucucus da costa leste, mas também pela natureza como um todo. Dou-lhe os parabéns por isto e pelo exemplo transmitido aos seus filhos. Muito obrigado e que Deus continue a abençoá-lo em sua vida e em seu trabalho.

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  13. resumi qual que é o modo de vida dela por favor obrigado

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    1. basicamente vivendo em buracos de paca e tatu, em areas de floresta preservada e fria, alimentando-se dos pequenos 'ratos-paca', e enfrentando o risco de extinção por perda de habitat

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    2. basicamente vivendo em buracos de paca e tatu, em areas de floresta preservada e fria, alimentando-se dos pequenos 'ratos-paca', e enfrentando o risco de extinção por perda de habitat

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  14. Gostaria de saber se o senhor tem conhecimento dessa cobra ser conhecida como dourado,na minha região esse tal dourado é uma lenda,por isso a duvida,ultimamente não ha muitos avistamentos,minha região é noroeste fluminense,divisa com minas e espirito santo.Desde já obrigado.

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  15. sim, já vi 'dourado' descrito para lachesis e Bothrops jararacussu, a surucucu foi considerada extinta no RJ mas recentemente revi isso e publiquei aqui no blog:
    http://lachesisbrasil.blogspot.com.br/2014/05/luz-no-fim-do-tunel-no-rio-de-janeiro.html abraço, R

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